O ENCONTRO
Paciência nunca foi meu forte. Sempre fui muito ansioso, desde criança – eu me segurava ante às situações por uma questão de educação, de treino, sei lá... mas na minha cabeça, um torvelinho de pensamentos ficava quase incontrolável. Eu não era agitado de não parar quieto – pelo contrário, sempre fiquei no meu canto, era muito introspectivo, preferia observar tudo e tirar minhas próprias conclusões, talvez fosse uma forma de conversar com meu “eu” sem a interrupção dos outros – fossem adultos ou crianças...
Não mudamos quando crescemos, apenas nos adequamos a determinados cenários. Dessa forma, segui sendo um adolescente quieto e só me soltava com meu pequeno círculo de amigos do colégio. Assim também foi a vida adulta. Muito compenetrado, seletivo, perfeccionista – um chato, com certeza.
Mesmo um chato tem seu lado afetivo, a necessidade de amar e ser amado. Já tinha passado por muitas desilusões e aos 50 anos eu imaginava que mais nada iria acontecer, que não encontraria alguém que representasse tanto e com tanta intensidade em minha vida. Eu estava errado.
Este é o relato dos momentos que antecederam nosso segundo encontro, a noite que pode ser considerada como o início de tudo...
O dia parecia se arrastar, era como se os ponteiros do relógio tivessem feito um complô para que a noite daquela quinta-feira não chegasse nunca.
Eu estava inquieto, um misto entre o nervosismo e a ansiedade. Já tivera outros encontros anteriormente, o fato de se encontrar com alguém não era exatamente uma novidade. Mas dessa vez era diferente. Não era mais um encontro, não era mais uma quinta-feira, não era mais uma mulher.
Mais uma mulher...
Lembrei-me do nosso primeiro café, no sábado anterior. Ela, extremamente simpática, numa beleza sem maquiagem, elegante numa roupa de ginástica, simples num sorriso, cativante na conversa, misteriosa no olhar. Na ocasião falamos sobre encontros e desencontros e ela perguntou se eu já havia conhecido muitas mulheres na minha vida de divorciado. Aproveitando seu humor aguçado e inteligência rápida, disparei: “você pegou a ficha 104”. Rimos muito daquilo e esse bordão seria utilizado inúmeras vezes no decorrer dos próximos anos. O que nenhum de nós podia prever é que aquela ficha seria a única.
Eu ficava me lembrando desse café e um sorriso invadia meu rosto, eu me acalmava a tal ponto que as meninas que trabalhavam comigo ficavam me provocando, perguntando o que estava acontecendo. Não dava para contar – aliás, nem mesmo eu tinha idéia do que iria acontecer daquele dia em diante.
Quando deu meio-dia foi todo mundo almoçar. Fiquei sozinho na Secretaria – tínhamos um acordo quanto ao tempo de almoço. Na quietude do vozerio das conversas e do trinar insistente dos telefones, eu ficava imaginando como seria nosso segundo encontro, como eu me posicionaria, o que diria ao abrir a porta do apartamento... essas coisas que julgamos que só adolescentes fazem. Eu havia até comprado uma roupa nova para a ocasião, uma camisa que a vendedora jurou pra mim que era rosa e uma calça social – mas quando cheguei em casa e fui me aprontar, eu me olhei no espelho e me achei ridículo... pra quê tanta formalidade? Foi o trabalho de vasculhar às pressas o guarda-roupas para encontrar um bom e confiável jeans, passá-lo a ferro e foi a melhor coisa que fiz.
Finalmente o relógio sinalizou dezoito horas. Naquele instante, senti que o Universo ficou leve, alguma coisa mágica iria acontecer. Peguei meu carro e fui pra casa. No caminho parei num Shopping perto de casa. Era muito cedo, eu tinha tempo de caminhar pelas alamedas das lojas, sentir o aroma dos muitos perfumes que se misturam nesses corredores e sonhar mais um pouco.
Fui para minha casa, fiquei esperando e não tenho como negar que meu coração ficou descompassado quando o interfone tocou e o porteiro anunciou sua chegada. O resto da estória já sabemos...
Quando fui começar a escrever este relato, vi que na pasta de Documentos do notebook tinha alguns livros em PDF – muitos dos quais eu já nem me lembrava mais porque baixava para ler depois e acabava adiando. Mas neste caso foi interessante porque abri o arquivo, vasculhei com o mouse algumas páginas a êsmo e parei neste trecho:
“Os homens oferecem carinho, mas desejam sexo. As mulheres oferecem sexo, mas desejam carinho. Só o namoro consegue manter essa negociação equilibrada. Repare como os namorados agradam-se, trocam presentes, carinhos e aproveitam todos os momentos juntos. Fazem isso porque estão juntos por opção, não por obrigação”. O Livro da Bruxa, de Roberto Lopes.
Não pude deixar de considerar isso curioso porque durante todo o nosso tempo de namoro tudo se manteve equilibrado, o carinho e o sexo. Fizemos muitas loucuras, todas desejadas, todas marcantes, todas incríveis...
Durante alguns anos, sem saber, talvez eu tenha sido namorado de uma Bruxa – a criatura mais sensacional que conheci nesta vida!