sexta-feira, 21 de março de 2025

 

O ENCONTRO



Paciência nunca foi meu forte. Sempre fui muito ansioso, desde criança – eu me segurava ante às situações por uma questão de educação, de treino, sei lá... mas na minha cabeça, um torvelinho de pensamentos ficava quase incontrolável. Eu não era agitado de não parar quieto – pelo contrário, sempre fiquei no meu canto, era muito introspectivo, preferia observar tudo e tirar minhas próprias conclusões, talvez fosse uma forma de conversar com meu “eu” sem a interrupção dos outros – fossem adultos ou crianças...


Não mudamos quando crescemos, apenas nos adequamos a determinados cenários. Dessa forma, segui sendo um adolescente quieto e só me soltava com meu pequeno círculo de amigos do colégio. Assim também foi a vida adulta. Muito compenetrado, seletivo, perfeccionista – um chato, com certeza.


Mesmo um chato tem seu lado afetivo, a necessidade de amar e ser amado. Já tinha passado por muitas desilusões e aos 50 anos eu imaginava que mais nada iria acontecer, que não encontraria alguém que representasse tanto e com tanta intensidade em minha vida. Eu estava errado.


Este é o relato dos momentos que antecederam nosso segundo encontro, a noite que pode ser considerada como o início de tudo...


O dia parecia se arrastar, era como se os ponteiros do relógio tivessem feito um complô para que a noite daquela quinta-feira não chegasse nunca.


Eu estava inquieto, um misto entre o nervosismo e a ansiedade. Já tivera outros encontros anteriormente, o fato de se encontrar com alguém não era exatamente uma novidade. Mas dessa vez era diferente. Não era mais um encontro, não era mais uma quinta-feira, não era mais uma mulher.


Mais uma mulher...


Lembrei-me do nosso primeiro café, no sábado anterior. Ela, extremamente simpática, numa beleza sem maquiagem, elegante numa roupa de ginástica, simples num sorriso, cativante na conversa, misteriosa no olhar. Na ocasião falamos sobre encontros e desencontros e ela perguntou se eu já havia conhecido muitas mulheres na minha vida de divorciado. Aproveitando seu humor aguçado e inteligência rápida, disparei: “você pegou a ficha 104”. Rimos muito daquilo e esse bordão seria utilizado inúmeras vezes no decorrer dos próximos anos. O que nenhum de nós podia prever é que aquela ficha seria a única.


Eu ficava me lembrando desse café e um sorriso invadia meu rosto, eu me acalmava a tal ponto que as meninas que trabalhavam comigo ficavam me provocando, perguntando o que estava acontecendo. Não dava para contar – aliás, nem mesmo eu tinha idéia do que iria acontecer daquele dia em diante.


Quando deu meio-dia foi todo mundo almoçar. Fiquei sozinho na Secretaria – tínhamos um acordo quanto ao tempo de almoço. Na quietude do vozerio das conversas e do trinar insistente dos telefones, eu ficava imaginando como seria nosso segundo encontro, como eu me posicionaria, o que diria ao abrir a porta do apartamento... essas coisas que julgamos que só adolescentes fazem. Eu havia até comprado uma roupa nova para a ocasião, uma camisa que a vendedora jurou pra mim que era rosa e uma calça social – mas quando cheguei em casa e fui me aprontar, eu me olhei no espelho e me achei ridículo... pra quê tanta formalidade? Foi o trabalho de vasculhar às pressas o guarda-roupas para encontrar um bom e confiável jeans, passá-lo a ferro e foi a melhor coisa que fiz.


Finalmente o relógio sinalizou dezoito horas. Naquele instante, senti que o Universo ficou leve, alguma coisa mágica iria acontecer. Peguei meu carro e fui pra casa. No caminho parei num Shopping perto de casa. Era muito cedo, eu tinha tempo de caminhar pelas alamedas das lojas, sentir o aroma dos muitos perfumes que se misturam nesses corredores e sonhar mais um pouco.


Fui para minha casa, fiquei esperando e não tenho como negar que meu coração ficou descompassado quando o interfone tocou e o porteiro anunciou sua chegada. O resto da estória já sabemos...


Quando fui começar a escrever este relato, vi que na pasta de Documentos do notebook tinha alguns livros em PDF – muitos dos quais eu já nem me lembrava mais porque baixava para ler depois e acabava adiando. Mas neste caso foi interessante porque abri o arquivo, vasculhei com o mouse algumas páginas a êsmo e parei neste trecho:


Os homens oferecem carinho, mas desejam sexo. As mulheres oferecem sexo, mas desejam carinho. Só o namoro consegue manter essa negociação equilibrada. Repare como os namorados agradam-se, trocam presentes, carinhos e aproveitam todos os momentos juntos. Fazem isso porque estão juntos por opção, não por obrigação”. O Livro da Bruxa, de Roberto Lopes.



Não pude deixar de considerar isso curioso porque durante todo o nosso tempo de namoro tudo se manteve equilibrado, o carinho e o sexo. Fizemos muitas loucuras, todas desejadas, todas marcantes, todas incríveis...


Durante alguns anos, sem saber, talvez eu tenha sido namorado de uma Bruxa – a criatura mais sensacional que conheci nesta vida!

 

A FADA E A BRUXA


Há u´a magia que nos une,

um fogo que aproxima

e um gelo que nos afasta...

Existe um querer imenso

e uma indiferença que enlouquece.

É um emaranhado de espinhos

onde procuro a rosa

ou ao menos seu perfume...

É o dualismo, o contraponto.

Tento entender, não consigo;

tento esquecer, não posso.

O tempo passa, nós passamos

e só fica uma ilusão pesada.

É o duelo entre a fada e a bruxa

que com seus feitiços

só me faz pensar uma coisa:

há u´a magia que nos une...

domingo, 29 de dezembro de 2024

A Carta para o Papai Noel

 

O ano de 1997 estava perfeito para mim. A ascensão profissional era plena, eu detinha um cargo de importância no serviço público. A vida acadêmica sugeria um novo estágio evolutivo; novas idéias, realização em vários segmentos. Reconhecimento no trabalho, viagem internacional, um carro novo da moda na garagem e, de quebra, um apartamento que havia sido entregue recentemente.


Tudo corria às mil maravilhas! Eu era feliz e sentia áurea igual à minha volta. Não me faltava nada e eu era feliz. Aliás, todos me pareciam felizes. Muitas vezes, nessa época, eu pegava meu carro e, à êsmo, saía por São Paulo de madrugada, vagando pela avenida Paulista e imediações somente para ver a decoração de Natal, os enfeites nos prédios comerciais na via pública. Tudo era atraente, luzes e cores que se alternavam e saltavam aos olhos. A memória de minha infância num bairro da Zona Oeste comparava as situações análogas. Eu só via – criança, ainda – luzes no Centro e elas iam sumindo à medida em que o ônibus se afastava da região central e ia percorrendo as ruas dos bairros e, finalmente chegando aonde eu morava, com ruas escuras e sem pavimentação.


Eu sabia que isso guardava uma relação direta com minha preferência com ambientes iluminados. Nunca gostei da escuridão: eu me sentia – e me sinto até hoje – triste num ambiente assim. Esses detalhes todos eram supridos e com folga pelo carinho dos meus pais que jamais mediram esforços para propiciar aos filhos sempre o melhor. Tivemos incentivo para estudar e, dessa forma ter uma vida material melhor, mais confortável. Tudo valeu a pena, o estudo, o esforço, o foco – tudo!


Essas lembranças todas vinham à minha cabeça enquanto eu passeava pelos corredores daquele shopping, vendo as vitrines coloridas, as luzes, o encantamento estudado com detalhes à nossa disposição. Eu estava de folga e precisava comprar algumas lembranças para as festividades da época.


Afinal, eu havia vencido. Tudo sob meu controle... minha vida, minhas coisas materiais, tudo!


Continuei a caminhar pelo shopping até que me deparei com o espaço central decorado com inúmeros enfeites e um volume imenso de cartas – como se fossem cartas de pedidos ao Bom Velhinho.


Na hora eu me recordei da cartinha que fiz ao Papai Noel quando eu tinha cinco anos, pedindo um trenzinho elétrico – que nunca chegou...rsss.


Aproximei-me do bolo de cartinhas. Percebi que não eram cenográficas. Eram envelopes comuns, com letras de crianças que mal sabiam escrever. Aquilo me intrigou. Cheguei mais perto. Num olhar rápido eu me certifiquei se não havia nenhum segurança do shopping por alí. Eu me esgueirei por entre uma espécie de cerquinha de plástico e ousei pegar um envelope.


Eu me senti profanando um santuário. Abri o envelope. Pude ler, então, a mensagem, o pedido de uma criança para o Papai Noel. A letra de uma criança que traduzia seu desejo mais íntimo! Alí, aquela criança se apresentava ao Bom Velhinho, afirmava acreditar nele e pedia só um presente, só um. Juro para vocês que meu coração parou de bater naquele instante. Não queria nada para ela mas, de presente, pediu um emprego para seu pai. Relatou que o pai estava triste por não ter um trabalho e não poder ofertar nada para a família.


Dobrei a cartinha e a coloquei de volta ao monte de cartas com o máximo respeito. Não havia o que eu pudesse fazer.


Eu, que havia entrado no shopping todo contente e cheio de mim, fui embora na mesma hora, não comprando nada do que havia planejado – não tinha o menor clima para isso.


Enquanto eu – naquele momento – desfrutava de um momento bom, livre das ruas escuras da minha infância, tive um balde de água fria que crianças enfrentavam sina mais dura.


Sempre guardei severas críticas ao Papai Noel por não ter trazido o meu trenzinho elétrico – que eu tanto queria!!! - mas depois desse episódio eu sempre peço a ele para encher de bênçãos essa criança (hoje adulto) que trocou seu presente por um emprego para seu pai.