O ano de 1997 estava perfeito para mim. A ascensão profissional era plena, eu detinha um cargo de importância no serviço público. A vida acadêmica sugeria um novo estágio evolutivo; novas idéias, realização em vários segmentos. Reconhecimento no trabalho, viagem internacional, um carro novo da moda na garagem e, de quebra, um apartamento que havia sido entregue recentemente.
Tudo corria às mil maravilhas! Eu era feliz e sentia áurea igual à minha volta. Não me faltava nada e eu era feliz. Aliás, todos me pareciam felizes. Muitas vezes, nessa época, eu pegava meu carro e, à êsmo, saía por São Paulo de madrugada, vagando pela avenida Paulista e imediações somente para ver a decoração de Natal, os enfeites nos prédios comerciais na via pública. Tudo era atraente, luzes e cores que se alternavam e saltavam aos olhos. A memória de minha infância num bairro da Zona Oeste comparava as situações análogas. Eu só via – criança, ainda – luzes no Centro e elas iam sumindo à medida em que o ônibus se afastava da região central e ia percorrendo as ruas dos bairros e, finalmente chegando aonde eu morava, com ruas escuras e sem pavimentação.
Eu sabia que isso guardava uma relação direta com minha preferência com ambientes iluminados. Nunca gostei da escuridão: eu me sentia – e me sinto até hoje – triste num ambiente assim. Esses detalhes todos eram supridos e com folga pelo carinho dos meus pais que jamais mediram esforços para propiciar aos filhos sempre o melhor. Tivemos incentivo para estudar e, dessa forma ter uma vida material melhor, mais confortável. Tudo valeu a pena, o estudo, o esforço, o foco – tudo!
Essas lembranças todas vinham à minha cabeça enquanto eu passeava pelos corredores daquele shopping, vendo as vitrines coloridas, as luzes, o encantamento estudado com detalhes à nossa disposição. Eu estava de folga e precisava comprar algumas lembranças para as festividades da época.
Afinal, eu havia vencido. Tudo sob meu controle... minha vida, minhas coisas materiais, tudo!
Continuei a caminhar pelo shopping até que me deparei com o espaço central decorado com inúmeros enfeites e um volume imenso de cartas – como se fossem cartas de pedidos ao Bom Velhinho.
Na hora eu me recordei da cartinha que fiz ao Papai Noel quando eu tinha cinco anos, pedindo um trenzinho elétrico – que nunca chegou...rsss.
Aproximei-me do bolo de cartinhas. Percebi que não eram cenográficas. Eram envelopes comuns, com letras de crianças que mal sabiam escrever. Aquilo me intrigou. Cheguei mais perto. Num olhar rápido eu me certifiquei se não havia nenhum segurança do shopping por alí. Eu me esgueirei por entre uma espécie de cerquinha de plástico e ousei pegar um envelope.
Eu me senti profanando um santuário. Abri o envelope. Pude ler, então, a mensagem, o pedido de uma criança para o Papai Noel. A letra de uma criança que traduzia seu desejo mais íntimo! Alí, aquela criança se apresentava ao Bom Velhinho, afirmava acreditar nele e pedia só um presente, só um. Juro para vocês que meu coração parou de bater naquele instante. Não queria nada para ela mas, de presente, pediu um emprego para seu pai. Relatou que o pai estava triste por não ter um trabalho e não poder ofertar nada para a família.
Dobrei a cartinha e a coloquei de volta ao monte de cartas com o máximo respeito. Não havia o que eu pudesse fazer.
Eu, que havia entrado no shopping todo contente e cheio de mim, fui embora na mesma hora, não comprando nada do que havia planejado – não tinha o menor clima para isso.
Enquanto eu – naquele momento – desfrutava de um momento bom, livre das ruas escuras da minha infância, tive um balde de água fria que crianças enfrentavam sina mais dura.
Sempre guardei severas críticas ao Papai Noel por não ter trazido o meu trenzinho elétrico – que eu tanto queria!!! - mas depois desse episódio eu sempre peço a ele para encher de bênçãos essa criança (hoje adulto) que trocou seu presente por um emprego para seu pai.