sexta-feira, 21 de março de 2025

 

O ENCONTRO



Paciência nunca foi meu forte. Sempre fui muito ansioso, desde criança – eu me segurava ante às situações por uma questão de educação, de treino, sei lá... mas na minha cabeça, um torvelinho de pensamentos ficava quase incontrolável. Eu não era agitado de não parar quieto – pelo contrário, sempre fiquei no meu canto, era muito introspectivo, preferia observar tudo e tirar minhas próprias conclusões, talvez fosse uma forma de conversar com meu “eu” sem a interrupção dos outros – fossem adultos ou crianças...


Não mudamos quando crescemos, apenas nos adequamos a determinados cenários. Dessa forma, segui sendo um adolescente quieto e só me soltava com meu pequeno círculo de amigos do colégio. Assim também foi a vida adulta. Muito compenetrado, seletivo, perfeccionista – um chato, com certeza.


Mesmo um chato tem seu lado afetivo, a necessidade de amar e ser amado. Já tinha passado por muitas desilusões e aos 50 anos eu imaginava que mais nada iria acontecer, que não encontraria alguém que representasse tanto e com tanta intensidade em minha vida. Eu estava errado.


Este é o relato dos momentos que antecederam nosso segundo encontro, a noite que pode ser considerada como o início de tudo...


O dia parecia se arrastar, era como se os ponteiros do relógio tivessem feito um complô para que a noite daquela quinta-feira não chegasse nunca.


Eu estava inquieto, um misto entre o nervosismo e a ansiedade. Já tivera outros encontros anteriormente, o fato de se encontrar com alguém não era exatamente uma novidade. Mas dessa vez era diferente. Não era mais um encontro, não era mais uma quinta-feira, não era mais uma mulher.


Mais uma mulher...


Lembrei-me do nosso primeiro café, no sábado anterior. Ela, extremamente simpática, numa beleza sem maquiagem, elegante numa roupa de ginástica, simples num sorriso, cativante na conversa, misteriosa no olhar. Na ocasião falamos sobre encontros e desencontros e ela perguntou se eu já havia conhecido muitas mulheres na minha vida de divorciado. Aproveitando seu humor aguçado e inteligência rápida, disparei: “você pegou a ficha 104”. Rimos muito daquilo e esse bordão seria utilizado inúmeras vezes no decorrer dos próximos anos. O que nenhum de nós podia prever é que aquela ficha seria a única.


Eu ficava me lembrando desse café e um sorriso invadia meu rosto, eu me acalmava a tal ponto que as meninas que trabalhavam comigo ficavam me provocando, perguntando o que estava acontecendo. Não dava para contar – aliás, nem mesmo eu tinha idéia do que iria acontecer daquele dia em diante.


Quando deu meio-dia foi todo mundo almoçar. Fiquei sozinho na Secretaria – tínhamos um acordo quanto ao tempo de almoço. Na quietude do vozerio das conversas e do trinar insistente dos telefones, eu ficava imaginando como seria nosso segundo encontro, como eu me posicionaria, o que diria ao abrir a porta do apartamento... essas coisas que julgamos que só adolescentes fazem. Eu havia até comprado uma roupa nova para a ocasião, uma camisa que a vendedora jurou pra mim que era rosa e uma calça social – mas quando cheguei em casa e fui me aprontar, eu me olhei no espelho e me achei ridículo... pra quê tanta formalidade? Foi o trabalho de vasculhar às pressas o guarda-roupas para encontrar um bom e confiável jeans, passá-lo a ferro e foi a melhor coisa que fiz.


Finalmente o relógio sinalizou dezoito horas. Naquele instante, senti que o Universo ficou leve, alguma coisa mágica iria acontecer. Peguei meu carro e fui pra casa. No caminho parei num Shopping perto de casa. Era muito cedo, eu tinha tempo de caminhar pelas alamedas das lojas, sentir o aroma dos muitos perfumes que se misturam nesses corredores e sonhar mais um pouco.


Fui para minha casa, fiquei esperando e não tenho como negar que meu coração ficou descompassado quando o interfone tocou e o porteiro anunciou sua chegada. O resto da estória já sabemos...


Quando fui começar a escrever este relato, vi que na pasta de Documentos do notebook tinha alguns livros em PDF – muitos dos quais eu já nem me lembrava mais porque baixava para ler depois e acabava adiando. Mas neste caso foi interessante porque abri o arquivo, vasculhei com o mouse algumas páginas a êsmo e parei neste trecho:


Os homens oferecem carinho, mas desejam sexo. As mulheres oferecem sexo, mas desejam carinho. Só o namoro consegue manter essa negociação equilibrada. Repare como os namorados agradam-se, trocam presentes, carinhos e aproveitam todos os momentos juntos. Fazem isso porque estão juntos por opção, não por obrigação”. O Livro da Bruxa, de Roberto Lopes.



Não pude deixar de considerar isso curioso porque durante todo o nosso tempo de namoro tudo se manteve equilibrado, o carinho e o sexo. Fizemos muitas loucuras, todas desejadas, todas marcantes, todas incríveis...


Durante alguns anos, sem saber, talvez eu tenha sido namorado de uma Bruxa – a criatura mais sensacional que conheci nesta vida!

 

A FADA E A BRUXA


Há u´a magia que nos une,

um fogo que aproxima

e um gelo que nos afasta...

Existe um querer imenso

e uma indiferença que enlouquece.

É um emaranhado de espinhos

onde procuro a rosa

ou ao menos seu perfume...

É o dualismo, o contraponto.

Tento entender, não consigo;

tento esquecer, não posso.

O tempo passa, nós passamos

e só fica uma ilusão pesada.

É o duelo entre a fada e a bruxa

que com seus feitiços

só me faz pensar uma coisa:

há u´a magia que nos une...

domingo, 29 de dezembro de 2024

A Carta para o Papai Noel

 

O ano de 1997 estava perfeito para mim. A ascensão profissional era plena, eu detinha um cargo de importância no serviço público. A vida acadêmica sugeria um novo estágio evolutivo; novas idéias, realização em vários segmentos. Reconhecimento no trabalho, viagem internacional, um carro novo da moda na garagem e, de quebra, um apartamento que havia sido entregue recentemente.


Tudo corria às mil maravilhas! Eu era feliz e sentia áurea igual à minha volta. Não me faltava nada e eu era feliz. Aliás, todos me pareciam felizes. Muitas vezes, nessa época, eu pegava meu carro e, à êsmo, saía por São Paulo de madrugada, vagando pela avenida Paulista e imediações somente para ver a decoração de Natal, os enfeites nos prédios comerciais na via pública. Tudo era atraente, luzes e cores que se alternavam e saltavam aos olhos. A memória de minha infância num bairro da Zona Oeste comparava as situações análogas. Eu só via – criança, ainda – luzes no Centro e elas iam sumindo à medida em que o ônibus se afastava da região central e ia percorrendo as ruas dos bairros e, finalmente chegando aonde eu morava, com ruas escuras e sem pavimentação.


Eu sabia que isso guardava uma relação direta com minha preferência com ambientes iluminados. Nunca gostei da escuridão: eu me sentia – e me sinto até hoje – triste num ambiente assim. Esses detalhes todos eram supridos e com folga pelo carinho dos meus pais que jamais mediram esforços para propiciar aos filhos sempre o melhor. Tivemos incentivo para estudar e, dessa forma ter uma vida material melhor, mais confortável. Tudo valeu a pena, o estudo, o esforço, o foco – tudo!


Essas lembranças todas vinham à minha cabeça enquanto eu passeava pelos corredores daquele shopping, vendo as vitrines coloridas, as luzes, o encantamento estudado com detalhes à nossa disposição. Eu estava de folga e precisava comprar algumas lembranças para as festividades da época.


Afinal, eu havia vencido. Tudo sob meu controle... minha vida, minhas coisas materiais, tudo!


Continuei a caminhar pelo shopping até que me deparei com o espaço central decorado com inúmeros enfeites e um volume imenso de cartas – como se fossem cartas de pedidos ao Bom Velhinho.


Na hora eu me recordei da cartinha que fiz ao Papai Noel quando eu tinha cinco anos, pedindo um trenzinho elétrico – que nunca chegou...rsss.


Aproximei-me do bolo de cartinhas. Percebi que não eram cenográficas. Eram envelopes comuns, com letras de crianças que mal sabiam escrever. Aquilo me intrigou. Cheguei mais perto. Num olhar rápido eu me certifiquei se não havia nenhum segurança do shopping por alí. Eu me esgueirei por entre uma espécie de cerquinha de plástico e ousei pegar um envelope.


Eu me senti profanando um santuário. Abri o envelope. Pude ler, então, a mensagem, o pedido de uma criança para o Papai Noel. A letra de uma criança que traduzia seu desejo mais íntimo! Alí, aquela criança se apresentava ao Bom Velhinho, afirmava acreditar nele e pedia só um presente, só um. Juro para vocês que meu coração parou de bater naquele instante. Não queria nada para ela mas, de presente, pediu um emprego para seu pai. Relatou que o pai estava triste por não ter um trabalho e não poder ofertar nada para a família.


Dobrei a cartinha e a coloquei de volta ao monte de cartas com o máximo respeito. Não havia o que eu pudesse fazer.


Eu, que havia entrado no shopping todo contente e cheio de mim, fui embora na mesma hora, não comprando nada do que havia planejado – não tinha o menor clima para isso.


Enquanto eu – naquele momento – desfrutava de um momento bom, livre das ruas escuras da minha infância, tive um balde de água fria que crianças enfrentavam sina mais dura.


Sempre guardei severas críticas ao Papai Noel por não ter trazido o meu trenzinho elétrico – que eu tanto queria!!! - mas depois desse episódio eu sempre peço a ele para encher de bênçãos essa criança (hoje adulto) que trocou seu presente por um emprego para seu pai.


domingo, 30 de junho de 2024

SAUDADE TEM GOSTO DE ALGODÃO-DOCE


Já li muita coisa sobre o termo saudade. Dizem que só existe na Língua Portuguesa – em nenhuma outra. Não tem tradução. 

Será?

Não entendo tanto de idiomas assim para afirmar – aliás, além de um Português meio assim-assim, arrisco poucas palavras em outras paragens... quanto mais a sobrancelha do ouvinte sobe, mais certeza tenho de que estou falando bobagem...rs... deixa pra lá – o que importa não é nem a bandeira do nosso cartão de crédito mas o limite que ele contém...

Mas voltemos à comparação que eu quero fazer!

Alguém se lembra do gosto do algodão-doce? Não precisa ser lembrança do teor de açúcar ou do tanto que a guloseima grudava na mão ou incomodava ao ir de encontro ao nosso cabelo.

Duvido que alguém se esqueça do instante em que aquela máquina meio sem graça ia tecendo fios mágicos de açúcar, as luzes coloridas do lugar, a algazarra das crianças, das palavras suaves dos nossos pais e do momento indescritível em que nos era permitido pegar uma nuvem de múltiplos prazeres: olfativo, visual, sensorial, até que chegava à nossa boca.

Esse momento – ou a junção desses instantes – em que nos lembramos e revivemos a lembrança de tudo isso, das pessoas que nos proporcionaram essa magia – se chama saudade. 

Claro que não é o único momento em que sentimos isso, foi apenas uma maneira de assim colocar. Você pode sentir saudade no nascer ou no por do Sol, na chuva que cai no meio da tarde, na música que você gosta tocando ao longe, na visão da criança que ensaia os primeiros passos e que já não mais existe, no beijo que você jamais esqueceu, na lembrança daquela pessoa que você tanto pensou que amava... 

As coisas são assim, evanescentes como aquele algodão-doce... que mesmo existindo por um breve momento, deixou lembranças (saudades) impossíveis de serem esquecidas...

A saudade tem gosto de algodão-doce...

domingo, 14 de maio de 2023

"Não põe a mãe no meio!"

Às vezes me pego a pensar no meu tempo de criança. Não havia essa tecnologia de hoje – crescemos sem celulares, sem computadores, sem joguinhos eletrônicos na televisão. Sei que a criançada de hoje nem imagina que fazíamos os nossos próprios brinquedos às vezes e na maioria dos casos um lote de terra e uma bola resolviam nosso problema de diversão (quem é dos anos 50/60 lembra disso). Não havia nenhum treinamento, nenhuma tática: jogávamos conforme víamos os times na televisão. Sem uniformes, decidíamos entre os com camisa e os sem camisa. Chuteiras? Nem pensar... alguns jogavam de sandálias mesmo. As regras inventávamos na hora e não havia juíz. Uma coisa era certa: aonde a bola ia, lá iam todos os jogadores dos dois times, embolados, tropeçando uns nos outros. E quem nunca tinha levado um tombaço e deixado bons pedaços de pele do joelho na terra? Qual de nós, ao tentar marcar o pênalti, acertou uma pedra e não a bola e voltou mancando pra casa? Tempos bons... Claro que saíam brigas nas jogadas. Na falta de VAR, deliberávamos nós próprios alí, no grito, no empurrão, com palavreado alterado, cada um defendendo seu ponto de vista. Sobravam sopapos e a briga generalizada.

Mas havia um código de honra entre todos – as desavenças do jogo e das brincadeiras juntos ficavam entre nós. Se alguém inventasse de ofender a mãe de alguém, o tempo fechava. Todos esqueciam as diferenças pessoais e partiam pra cima do ofensor. Ninguém admitia que absolutamente nada fosse dito sobre a mãe de alguém; podíamos nos xingar de um monte de palavrões, mas se envolvesse mãe... ah!... esse garoto estava frito. E depois de muito bate-boca ele era posto no ostracismo, não podia participar de nenhuma brincadeira por um período.

Fiz esse relato todo para dizer que a figura da mãe sempre foi algo sagrado para cada um de nós. Desde garotos sabíamos que deveríamos defender nossas mães de qualquer ameaça. Tínhamos consciência de que nossa mãe zelava por nosso bem estar. Era nossa mãe que ficava do nosso lado, nos defendia de situações adversas. Era ela que tratava do joelho ralado no tombo e do dedo arrebentado na cobrança do pênalti. Ela também nos acalmava quando chegávamos alterados pelas contrariedades da infância ou por causa do menino que tinha rasgado a figurinha do álbum.

Mãe não sinaliza somente a mulher que teve filho/filhos; mãe é a síntese do amor abnegado, incondicional. Ela é a figura na qual nos espelhamos desde a mais tenra infância para sermos o que somos hoje. Pensa que é por acaso que todos temos um “M” na palma da mão? É M de Mãe – bom, né? Isso quer dizer que, mesmo distantes dela, a cada manhã quando lavamos o rosto, esfregamos docemente esse M em nossa face, num carinho que não acaba nunca... E existe beijo melhor do que o dela?
Feliz Dia das Mães!

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

 A NOITE EM QUE PELÉ IMPEDIU QUE EU APANHASSE

Paris, julho de 1997. Eu havia andado muito pela cidade naquele dia. As coisas todas eram corridas, vida de turista não é fácil! Horário para transporte, para ingresso em museu, outro museu, visita a Notre Dame, mais uma galeria, outra loja... ufa! Já era noite quando voltava para o hotel. Fome, claro. Ainda dentro da estação do Metrô, tinha uma banca de frutas. Parei, cumprimentei os dois vendedores com o olhar e fiquei observando o que levaria. As frutas eram lindas, pareciam suculentas. Eu me decidi por maçãs e ato reflexo, peguei uma delas para observar mais de perto, como é nosso costume no Brasil. Não demorou meio segundo para que os dois começassem a esbravejar comigo em bom e puro francês – idioma no qual eu não digo nem 'oi'. Os homens ficaram enfurecidos comigo. Lembrei do nosso escritor José de Alencar porque eles eram 'negros como as asas da graúna'. Quem já foi à França sabe do que estou dizendo: os negros residentes na França fazem com que o Neguinho da Beija-Flor pareça mais um moreninho claro... Eu pensei que eles fossem me bater alí mesmo, tinham uma raiva inexplicável nos olhos e não paravam de gritar comigo. Era evidente que não haviam gostado que eu tivesse colocado a mão numa maçã. Comecei a balbuciar num Inglês débil, tentando me justificar: “Sorry... I'm not from around here. I'm from Brazil... there we have other customs... Brazil, you know? Samba... Carnival... Pelé...”. Foi aí que o milagre aconteceu: quando eles ouviram 'Pelé' a fisionomia de ambos se transformou. A raiva foi embora e o rosto franzido deu lugar a sorrisos largos e um olhar doce. Permitiram que eu fizesse algo que (fiquei sabendo depois) não é comum por lá: escolher as frutas que eu queria, eu mesmo pegando-as nas mãos. Fui embora feliz com as minhas maçãs por vários motivos: daria um jeito imediato na fome, não havia apanhado deles e o mais importante... tive a confirmação inequívoca de que Pelé não era um jogador de futebol brasileiro. Pelé era uma instituição internacional. Ele não pertencia ao Brasil mas era do mundo. Todos o conheciam, admiravam, respeitavam. Sempre contei essa passagem aos amigos e agora, com profunda tristeza pelo passamento do Edson, resolvi escrever para que mais pessoas saibam. Pois é, Edson... você se foi para um merecido descanso mas o Pelé, esse vai ficar por aqui porque é eterno, é imortal, é uma constelação inteira no firmamento.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

O Coruja


Os olhos sempre atentos a tudo prestavam atenção a cada detalhe.

- Esse menino não perde nada, hein? Presta uma atenção...

- Sim, está sempre ligado em tudo... é um bebê ainda e parece que até entende o que os adultos conversam!

- Esse olhão arregalado... parece uma corujinha!

Pronto, o apelido pegou na hora! Coruja!

O menino cresceu, ficou forte e bonito, a alegria de todos os parentes. Conservava sempre aquele olhar quieto mas profundo, uma curiosidade imensa sobre o que o cercava.

Perguntas não faltavam: o Coruja queria saber sobre tudo, tudo!

Não foi um aluno muito brilhante na escola. Ficava aborrecido por ter que ficar sentado na sala de aula ouvindo a professora. Seu olhar pulava a janela ampla e ficava observando a copa das árvores, as nuvens, a passarada voando...

Ele sempre se considerou mais esperto do que os colegas, achava a escola uma perda de tempo. Mas, criança, tinha que obedecer aos pais.

O Coruja foi crescendo, chegou à adolescência. Teve que se alistar para servir o Exército.

Foi ao Quartel, preencheu as fichas, entregou os documentos. Aguardou em casa até que chegou o aviso: iria servir numa unidade do Exército numa outra cidade, um pouco distante de sua casa.

Encarou aquilo como uma atividade nova, pessoas todas desconhecidas, disciplina, hierarquia, ordem. No início ficou maravilhado com tudo aquilo, o toque da alvorada, a farda, os coturnos que mantinha sempre engraxados, a bandeira nacional hasteada, os treinamentos – tudo era novidade.

Mas o Coruja foi ficando entediado com sua nova vida: nada tinha muita emoção, era sempre a mesma coisa. Para ele – que sabia tudo – aquele marasmo era desesperador.

Ficou sabendo, através dos outros recrutas, que havia uma casa de diversões próxima do Quartel. Segundo os colegas, alí tinha garotas, uma mais bonita do que a outra e dispostas a proporcionar uma noite bem interessante...

Coruja ficou aguçado para conhecer o tal lugar. Bolou um plano.

- Capitão, eu queria pedir ao senhor se posso me ausentar do Quartel neste final de semana.

- O que houve, Soldado?

- Eu queria visitar minha mãe. Ela está muito doente.

- É mesmo? O que aconteceu com ela?

- Tem idade, né Capitão? O senhor sabe, a gente fica preocupado...

- Sim, eu entendo. Pode ir, Soldado. Você fica dispensado no próximo final de semana.

E lá foi o Coruja para o bordel. Divertiu-se o quanto pôde.

Quando voltou ao Quartel, ficava olhando o Capitão à distância e pensando no que tinha feito. Foi fácil demais...

Resolveu repetir mais uma vez:

- Capitão, o senhor poderia me liberar para eu ir visitar minha mãe?

- Ela piorou, Soldado?

- Pois é... eu estou aqui mas minha cabeça fica pensando, imaginando coisas... o senhor sabe!

- Claro, vá lá amparar sua mãe.

De novo, o bordel. No meio da bebida e da mulherada, ficava pensando quanto o Capitão era bobo...

Na outra semana, voltou ao Capitão:

- Capitão... eu queria...

- Já sei, Soldado! Quer visitar sua mãe.

- Sim... é... sim. O senhor me desculpe mas...

- Imagine, Soldado. No seu lugar eu também ficaria preocupado.

O Coruja se aprontou para sair na noitinha daquela sexta-feira mas o que ele não percebeu é que o Capitão já andava desconfiado daquela estória e resolveu seguí-lo à distância. Usou um carro com os faróis apagados cuidando para não perder o Soldado Coruja do seu campo de visão. Observou quando Coruja entrou num ônibus e desceu a poucos quilômetros dalí. Devagarinho o seguiu e viu quando entrou no bordel, que estava em festa, luzes coloridas, com música tocando alto.

Na segunda-feira logo cedo, o Capitão mandou chamar o Soldado Coruja na sua sala.

- Bom dia, Capitão!

- Bom dia, Soldado! Eu queria perguntar uma coisa a você... sua mãe é prostituta?

- Que é isso, Capitão? Não.. imagine!!!

- Então é a minha mãe que é prostituta?

- Eu...eu...eu... não, Capitão!!!

- Soldado, ou é a sua mãe ou é a minha: uma das duas é prostituta, sim.

Coruja sentiu naquele embate uma derrota iminente. As pernas bambearam, a boca ficou seca de repente. Algo dera errado.

- Soldado, um de nós aqui está mentindo. Se não é você, então o mentiroso sou eu.

- Mas, Capitão... eu não sei do que o senhor está falando...

- Sabe sim, Soldado! Eu o segui e vi quando entrou naquele bordel.

A manobra custou um mês de prisão ao Soldado Coruja. Prisão para um Soldado é a pior das desonras. O Coruja se sentia derrotado – logo ele, o espertalhão de nascença, o menino que sabia de tudo, que não precisava das professoras, ficou alí naquela cela úmida contando os minutos durante um mês. E como se explicaria à família?

O restante do período engajado foi na faxina, não participava mais das outras atividades. Alvo das piadinhas dos outros recrutas, abaixava a cabeça e suportava tudo calado: brigar significaria mais cadeia, mais privações.

Quando terminou o prazo do serviço militar obrigatório, participou timidamente da cerimônia oficial e finalmente foi para casa.

Ao chegar, foi recebido pelos pais que, alegres, mostraram a ele o que haviam comprado de presente no mercado do bairro. Num poleiro e com os olhos enormes arregalados, uma pequena coruja com o nome de 'Capitão'...


quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

VITÓRIO

Eu nasci no final dos anos 50, no Butantã, região Oeste de São Paulo. Se hoje ainda é um local bastante arborizado da cidade, imaginem naquela época! As pessoas também conservavam mais o meio ambiente: plantava-se muitas flores nos quintais, nos jardins das casas. Uma casa não era só concreto, só tijolo: a área verde era um padrão impositivo.

Na minha casa não era diferente. Meu pai gostava muito da Natureza. Tínhamos várias árvores frutíferas no enorme quintal que, se não davam frutos era por teimosia delas mas não por descuido, por falta de atenção. No jardim havia algumas palmeiras e várias roseiras que eram o grande xodó da minha mãe – ela adorava rosas. Confesso que poucas vezes vi rosas tão grandes e perfumadas.

É claro que cuidar disso tudo exigia olhares de alguém acostumado. Meu pai conhecia um jardineiro, o italiano Vitório – ou Vitorino, como ele o chamava. Lembro-me muito bem dele. Era bem alto e muito magro, o rosto comprido com a barba sempre por fazer e um esboço de bigode do qual ele não se desfazia. Os poucos cabelos brancos na cabeça eram cobertos por um chapéu de palha que ele só fazia breve menção de retirar ao cumprimentar alguém. Sua voz, de um timbre metálico trazia um sotaque que, nos meus cinco ou seis anos de vida me parecia estranho – sei hoje que ele misturava Português com o Italiano, sua língua natal. E era ele que fazia, periodicamente, o serviço de jardinagem lá em casa.

Vitório chegava cedo e eu, sabendo de antemão que ele viria, acordava mais cedo ainda para ficar em sua companhia. A destreza dele com aquelas ferramentas cortantes chocava um pouco; a enxada trazia grande quantidade de mato e minhocas! Quando ele utilizava umas tesouras estranhas para podar as flores eu ficava pensando se aquilo não machucava as pobres e indefesas plantas. No começo eu saía correndo chorar ao lado da minha mãe e acusava: “O Vitório está machucando as plantas...”. Com sua exemplar paciência, minha mãe explicava que ele estava, na verdade, proporcionando um ambiente melhor para elas viverem. De longe eu ouvia a risada do Vitório, que me chamava para explicar que ele tirava as partes doentes da planta para que outra sadia brotasse. Eu ouvia aquilo meio desconfiado mas notava que em questão de semanas um outro galho já se projetava no lugar do que havia sido retirado. Compreendi, então, que Vitório não mentia e passei a acompanhá-lo com mais entusiasmo cada vez que ele vinha.

Sempre paciente, conversava comigo o tempo todo, dizendo o que e como iria fazer alguma coisa. Parava de vez em quando e tirava do bolso alguns apetrechos para confeccionar seu cigarrinho de palha. Cortava um pedaço do fumo e picotava mais e mais com um canivete na palma da mão até que ficasse em pedaços muito pequenos, muito pequenos. Depois pegava uma palhinha retangular e nela espalhava o fumo picado, enrolando delicadamente até que o cigarro tomava forma. Apertava bem para que não se deformasse e uma estratégica lambida na palha, na última volta, fazia com que a ponta colasse ao corpo daquele tubo. Um isqueiro prateado fornecia a chama necessária e logo o ambiente em volta tinha o cheiro característico do fumo. Aquilo não me incomodava; pelo contrário, eu ficava esperando aquele momento porque era mesmo um ritual e enquanto isso, Vitório conversava comigo, brincando ou me mostrando brotos de flores ou pequenos animais que viviam no meio da vegetação. Com ele eu aprendi a respeitar o tempo das plantas, que havia necessidade de cuidados para que tudo se desenvolvesse de maneira saudável e que o velho sempre dava lugar ao novo.

E assim eu me acostumei ao velho Vitório cuidando das nossas plantas, tratando as flores que ficavam sempre viçosas. Eu já estava no fim da adolescência quando ele parou de trabalhar. Já aposentado de seu emprego e com o corpo cansado da lida constante, resolveu se recolher ao seio de sua família.

Já adulto, um dia minha mãe me perguntou:

- Sabe quem esteve aqui hoje?

- Nem imagino... quem?

- O Vitório!

- É mesmo? E ele, está bem?

- Ele veio se despedir...

- Como assim? Vai voltar para a Itália?

- Não entendi muito bem... Ele falou que estava se despedindo das pessoas porque não passaria outro Natal aqui.

Algumas semanas depois, soubemos que Vitório havia morrido. Não teve como não sentir um baque. Aquele homem que me conheceu criança e havia me ensinado tantas coisas sobre a Natureza que ele entendia tão bem, havia ido embora mesmo. E teve a delicadeza de vir se despedir, de agradecer o tempo de convívio.

Ainda hoje me recordo daquele semblante com palavras gentis comigo, daquele sotaque a que me acostumei tanto e de seus olhos mansamente verdes olhando-me sempre com paciência.

Você me ensinou muito, Vitório – e não me esqueço de que 'o velho precisa dar lugar ao novo'.



sexta-feira, 15 de outubro de 2021

 

A ESCOLA


Fazia um tempo insuportavelmente quente e seco. O reflexo do sol no chão chegava a doer nos olhos e eu não me sentia confortável. Caminhava ao lado de minha mãe que conversava comigo, me encorajando. Era esquisito, eu estava de calça curta azul marinho, camisa branca e gravata – eu não gostava de sair de calça curta à rua. O cheiro do banho recém tomado ia embora rapidamente pelo tanto que eu suava. Nem mesmo a poeira da rua de terra se levantava: o ar estava absolutamente parado. Eu tentava me distrair com várias coisas pelo caminho: algum pássaro que cruzasse o céu, poucos carros que passavam, flores nos jardins das casas. Pensei que o caminho pudesse ser mais longo para demorar bastante. Não era. Chegamos.


Nunca tinha visto tantas crianças juntas, num falatório ensurdecedor. Elas estavam alvoroçadas, pareciam ansiosas e alegres, à vontade. Entramos pelo grande portão e minha mãe me levou até uma senhora negra, de cabelos grisalhos e sorriso simpático. Era minha primeira professora, meu primeiro dia de aula. Dona Haidè me recebeu com imenso carinho, abaixou-se para me abraçar com ternura. Seus olhos eram azuis de uma tonalidade bem clara e inexplicavelmente ternos. Eu não sabia como corresponder àquilo porque não tinha em casa demonstrações exteriorizadas de afeto. As duas se despediram e vi minha mãe se afastar enquanto me dedicava um sorriso e um aceno de mão. Uma sensação estranha me invadiu, não era bem vontade de chorar mas senti uma dor no estômago, uma secura repetina na boca e uma profunda tristeza. O prenúncio de choro viria muitas outras vezes no decorrer daquela tarde, a cada nova situação que eu era obrigado a enfrentar. Tudo para mim era novidade: aquele amontoado de crianças, a professora – uma desconhecida mandando em mim! - a lousa enorme, escura e assustadora, o giz branco que de maneira mágica marcava contornos... Passei a observar melhor meu universo. A sala era grande, de teto muito, muito alto. Janelas igualmente generosas através das quais era possível observar a copa de muitas palmeiras do lado de fora, as nuvens brancas num céu muito azul. A porta tinha um visor, um quadradinho de vidro que permitia às freiras (mantenedoras da escola) dar uma espiadinha de vez em quando, controlando a classe. O soalho de tábuas largas fazia o ruído característico quando se pisava nele; não era encerado mas era de cor clara e o uso continuado de anos e anos fazia com que parecesse tão circunspecto como todo o resto. As carteiras eram de madeira, parecidas com aqueles antigos bancos de praça, ripados. Em cada uma delas sentavam duas crianças. No meio da carteira um furo atravessando o tampo: era o lugar para se colocar o tinteiro para as classes mais avançadas. Olhei para meu colega de carteira, meu primeiro colega de estudos. Ele havia tido paralisia infantil e seus movimentos eram difíceis, lentos; mal conseguia segurar o lápis que teimava em escorregar de seus dedos. Andava também de forma débil e ao falar nem todos entendiam. Eu me identifiquei com ele e nos tornamos grandes amigos, situação essa que perdurou na vida adulta. Pequenos, assustados e ingênuos, trocávamos nossas impressões acerca da escola, dos colegas, da professora...e prestávamos assim um auxílio mútuo desinteressado e produtivo.

Aquela tarde se arrastou penosamente até o horário do sinal. As crianças saíam das classes numa correria desenfreada. De longe vislumbrei a figura conhecida, simpática e amorosamente branda de minha mãe, que sorria. Senti um alívio imenso. Voltamos para casa e agora quem falava muito era eu, contando tim-tim por tim-tim de uma experiência que, reservadas as devidas proporções, iria se repetir muitas e muitas vezes no decorrer da minha vida.

quinta-feira, 8 de abril de 2021

A BEXIGA AMARELA


Eu tinha lá meus cinco ou seis anos. Início dos anos 60. Meu pai era muito mais velho do que eu, devia andar lá pela casa dos cinquenta e quatro, cinquenta e cinco anos. Já me recordo dele parcialmente calvo, com os cabelos todos brancos. Certa vez ele comentou em casa que não sairia mais comigo porque as pessoas brincavam: “é o netinho, seu João?” Mas ele gostava da minha companhia – e eu da dele. Para todo o lado que ele ia, lá estava eu junto...


Lembro-me que era um domingo. Tínhamos ido à venda do seu Manoel, comércio de secos e molhados perto de casa. No outro lado da pracinha, um homem vendendo balões de gás. Fiquei olhando maravilhado para aquelas bolas coloridas magicamente suspensas no ar, balançando... balançando...


Meu pai deve ter notado meu olhar de admiração e lá fomos nós em direção ao vendedor. “Escolhe uma”, disse ele. Fiquei extasiado com aquela oportunidade. Na verdade eu queria todas! Fixei-me numa amarela – acho que me pareceu mais simpática – e então o homem a desamarrou do feixe para entregá-la a mim.


Peguei a bexiga todo feliz e observei que ela não pesava nada, não precisava de nenhum esforço para segurá-la. Para pegar a carteira e pagar o brinquedo, meu pai colocou no chão a sacola que carregava e pediu para que eu sustentasse as alças de forma a não derrubar as compras que havia feito na vendinha.


Sempre obediente, fiz o que ele mandou, segurando as alças da sacola de lona. Assim que ele pagou o homem e se voltou para segurar a sacola, indagou: “Ué, cadê a bexiga?”. Eu apontei para o alto, vendo meu balãozinho amarelo se projetar lentamente para o firmamento. Eu havia soltado o barbante para atender ao pedido do meu pai para segurar a sacola...


Com paciência ele pediu outra bexiga e desta vez a amarrou em meu pulso. Fomos embora, meu pai, eu e a bexiga. Quando chegamos em casa, minha mãe fez a maior festa, elogiando meu presente... mas no fundo eu me sentia encabulado, triste mesmo.


De alguma forma, eu havia perdido a bexiga original, causado prejuízo e desperdiçado uma chance. Para atender meu pai, tinha perdido algo meu – e a outra não substituiu a primeira. Eu não queria as duas, queria somente aquela que havia ido embora... aquela que eu havia escolhido entre todas as outras.


Essa sensação de perda, de substituição forçada me acompanha até hoje e a cada sonho que se desfaz, fico pensando onde estará a minha bexiga amarela...

segunda-feira, 23 de março de 2020

O VÍRUS


Esse negócio do coronavírus tem mexido bastante com o emocional das pessoas. No meu tem, acho que a mesma coisa acontece com todo mundo, não? De repente estava eu no meu canto, preocupado com minhas coisas, juntando os boletos pra pagar no final do mês e o noticiário da televisão conta de um tal vírus lá do outro lado do planeta. Bom, e eu com isso? Nada, claro. Deixa o vírus quieto lá que eu ainda nem juntei os recibos pra fazer a Declaração do Imposto de Renda. Ah, e tem a última parcela do IPVA, a fatura do cartão de crédito. Preciso comprar um tênis novo. O moço do noticiário continua aquela lenga-lenga do vírus nos dias seguintes. Ôh, meu Deus... e eu com isso? É lá do outro lado do lado de lá do mundo!!! Cadê as notícias do meu time, quero saber se ganhou ou se perdeu, ora essa! Mas o moço da notícia não parou nos outros dias também. E eu não juntei os recibos, paguei a parcela do IPVA e a fatura do cartão, nem vi o preço do tênis e quando me dei conta o vírus estava quase na porta de casa. Foi uma coisa estranha porque, de repente, tudo veio muito rápido, as notícias, o vírus, o primeiro doente, a confirmação, a primeira morte e depois outra e mais outra. E o moço da notícia falava pra se ter cuidado, dizia pra que lavássemos as mãos, que não era pra ter contato com outras pessoas. E a vida foi seguindo até que a coisa começou a apertar mais e mais. Ninguém falava em outra coisa senão no vírus. Os números de infectados aumentava e os óbitos também. Começaram as tabelas, os percentuais, as comparações com outros países e nesse emaranhado todo, começaram as restrições ao comércio e às pessoas nas ruas. Fomos todos encorajados a ficar em casa, a trabalhar de casa, a planejar nossa vida de casa, a ficar em casa por ficar em casa. No princípio ninguém entendeu nada, as escolas sem aula, as ruas desertas, as piscinas vazias, as lojas fechadas, os carros parados. Todos nós confinados para não espalharmos o vírus, um protegendo o outro, numa solidariedade jamais pensada... eu não me contamino e não contamino ninguém. Ninguém põe vírus em ninguém. E de repente nos tornamos prisioneiros de uma situação inusitada para todos mas pudemos libertar outros sentimentos dentro de nós. Digo por mim mas senti algo bem semelhante com quem conversei: passamos a pensar no outro, a nos colocar um pouco no lugar do outro. Várias noites eu aqui, na segurança da minha “prisão” ficava olhando o caminhão da coleta de lixo e via aqueles garis pegando os nossos restos e jogando na caçamba. E eu pensava “caramba, eu estou aqui protegido mas aqueles caras, não!” Eu observava o trabalho deles e ficava imaginando o trajeto deles até a empresa, de trem, metrô, ônibus – quem sabe mais de um. Eles sim, expostos o tempo todo ao perigo de contágio para nos servir. E como eles, outros tantos... motoristas, policiais, bombeiros, médicos, enfermeiros, a caixa do supermercado... uma série de profissionais dos quais dependemos todos os dias e não nos damos conta, não damos valor a eles. Agora que estamos todos neste isolamento social, com medo – literalmente – da morte, o dinheiro de cada um não importa mais. Você pode ter muito dinheiro ou quase nenhum, se o vírus o contaminar, seu patrimônio não valerá nada, meu caro... a luta vai ser de um conta o outro. Num leito de hospital nenhum amigo vai ajudar, quebrar seu galho ou facilitar o que quer que seja. E é por isso que resolvi escrever isto agora, porque geralmente não perdemos tempo para verbalizar aquilo que queremos e certas coisas não devemos deixar para depois. Eu também estou com medo. Não queria estar aqui nesta clausura que, embora com conforto, não me permite andar ou estar com quem eu desejo. Eu queria passear no corredor de algum shopping, parar para tomar café com minha amada, ir ao cinema, comentar depois sobre o filme, levá-la pra casa e combinar um vinho na próxima sexta-feira, comprar queijos com carinho porque sei quais ela mais gosta. Queria andar despreocupado, de mãos dadas pela rua, observando cada placa de trânsito para transformar em poesia mais tarde, queria rir da criança tentando se equilibrar na bicicleta. Queria comprar meu tênis. Queria pedir desculpas, mais uma vez, pela briga que tivemos na semana anterior, uma bobagem que não teve sentido mas a deixou magoada, queria dividir o guarda-chuvas para não deixar que seu cabelo se molhasse, queria ouvir seu sorriso e olhar no seu olhar segundos antes de um beijo. Mas antes de mais nada, quero que este pesadelo termine, que todos nós guardemos essas estórias todas pra contar aos nossos netos e dizer a eles como nos tornamos mais fortes na adversidade e aprendemos na apreensão e no sofrimento. E se ficamos assim por causa de um inimigo minúsculo e invisível, não há mais como duvidar que exista um Ser Maior, invisível também mas enorme e repleto de amor – e que você pode chamar como quiser porque eu tenho certeza que Ele não vai se importar nem um pouco...


sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

2017

Última sexta—feira do ano, clima de réveillon, mensagens de felicitações nas redes sociais, pessoas ansiosas pelos festejos, ruas esvaziadas de um trânsito caótico.

Como em todos os finais de ano, fala-se muito do ano que está acabando, comentando o que houve de ruim, o pouco que foi conquistado, a expectativa pelo tal do Ano Novo.

Aqui no Brasil foi um ano agitado, sem dúvida alguma. Tivemos a união do povo em pról de uma moralidade pública, clamor das ruas que repercurtiu no Congresso Nacional e promoveu o impeachment da única mulher que ocupou a Presidência da República até agora. Algumas dezenas de políticos e empresários foram presos, detectados em esquemas de corrupção que vieram a público, expondo o País internacionalmente como um território podre. De uma certa forma a população se sentiu de alma lavada pois alguns culpados pelo desvio de dinheiro público foram condenados. Um pouco desse dinheiro - alguns bons milhões de dólares americanos - foi retornado aos cofres do Estado. O País mostrou uma outra face até então desconhecida: ainda que timidamente estamos deixando de ser tão complacentes com gente corrupta e entendemos que devemos sair às ruas protestar e exigir nossos direitos, nosso bem estar para nós e nossos filhos – para as futuras gerações.

É muito pouco, ainda. Estamos longe de ser aquela terra prometida que eu tanto ouvi falar quando criança, o “celeiro do mundo”, como diziam as pessoas de mais idade.

Muita ingenuidade acreditar que a partir de agora tudo será diferente e que não haverá mais corrupção. A ganância do ser humano não tem limites e se você tiver o cuidado de pesquisar um pouco pela História, encontrará situações escabrosas de corrupção, de crimes contra patrimônios públicos, gente que pretendeu se perpetuar no poder.

O festejado Ano Novo não será diferente dos demais. Você não ganhará na loteria, não ficará milionário e não fará aquela viagem à volta do planeta. A cura de certas doenças não virá antes de anos e anos de pesquisas, o sofrimento das guerras assolará vários países. O Homem não irá a Marte nem a lugar algum do espaço sideral... a não ser nos filmes de ficção científica.

Negativismo? Nem de longe; apenas realista.

Assim, dentro dos padrões clássicos, espero que todos sejam felizes tanto quanto possível, nessa nossa incompreensível jornada neste plano.

E que venha 2017!



quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

A Globo e o papel de iminência parda

Eu não gosto de copiar textos – acho falta de ética, de comprometimento a um ideal, ausência de capacidade, sei lá. Se eu escrevo, expresso meu pensamento, exponho o que sinto e me responsabilizo por tudo isso. Acho ótimo!
Neste 2015 pouco escrevi. O Brasil está tão ruim politica e economicamente que a vontade de escrever até vai embora, some em meio a desmandos, corrupção e impunidade.
Mas neste último dia de 2015 vou mudar e colocar aqui um texto com o qual eu me identifiquei totalmente: é da Jornalista Vanessa Barbara e foi publicado no The New York Times  em novembro deste ano.
Creditada a autoria, vamos a ele:

“No ano passado, a revista “The Economist” publicou um artigo sobre a Rede Globo, a maior emissora do Brasil. Ela relatou que “91 milhões de pessoas, pouco menos da metade da população, a assistem todo dia: o tipo de audiência que, nos Estados Unidos, só se tem uma vez por ano, e apenas para a emissora detentora dos direitos naquele ano de transmitir a partida do Super Bowl, a final do futebol americano”.
Esse número pode parecer exagerado, mas basta andar por uma quadra para que pareça conservador. Em todo lugar aonde vou há um televisor ligado, geralmente na Globo, e todo mundo a está assistindo hipnoticamente.
Sem causar surpresa, um estudo de 2011 apoiado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontou que o percentual de lares com um aparelho de televisão em 2011 (96,9) era maior do que o percentual de lares com um refrigerador (95,8) e que 64% tinham mais de um televisor. Outros pesquisadores relataram que os brasileiros assistem em média quatro horas e 31 minutos de TV por dia útil, e quatro horas e 14 minutos nos fins de semana; 73% assistem TV todo dia e apenas 4% nunca assistem televisão regularmente (eu sou uma destes últimos).
Entre eles, a Globo é ubíqua. Apesar de sua audiência estar em declínio há décadas, sua fatia ainda é de cerca de 34%. Sua concorrente mais próxima, a Record, tem 15%.
Assim, o que essa presença onipenetrante significa? Em um país onde a educação deixa a desejar (a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico classificou o Brasil recentemente em 60º lugar entre 76 países em desempenho médio nos testes internacionais de avaliação de estudantes), implica que um conjunto de valores e pontos de vista sociais é amplamente compartilhado. Além disso, por ser a maior empresa de mídia da América Latina, a Globo pode exercer influência considerável sobre nossa política.
Um exemplo: há dois anos, em um leve pedido de desculpas, o grupo Globo confessou ter apoiado a ditadura militar do Brasil entre 1964 e 1985. “À luz da História, contudo”, o grupo disse, “não há por que não reconhecer, hoje, explicitamente, que o apoio foi um erro, assim como equivocadas foram outras decisões editoriais do período que decorreram desse desacerto original”.
Com esses riscos em mente, e em nome do bom jornalismo, eu assisti a um dia inteiro de programação da Globo em uma terça-feira recente, para ver o que podia aprender sobre os valores e ideias que ela promove.
A primeira coisa que a maioria das pessoas assiste toda manhã é o noticiário local, depois o noticiário nacional. A partir desses, é possível inferir que não há nada mais importante na vida do que o clima e o trânsito. O fato de nossa presidente, Dilma Rousseff, enfrentar um sério risco de impeachment e que seu principal oponente político, Eduardo Cunha, o presidente da Câmara, está sendo investigado por receber propina, recebe menos tempo no ar do que os detalhes dos congestionamentos. Esses boletins são atualizados pelo menos seis vezes por dia, com os âncoras conversando amigavelmente, como tias velhas na hora do chá, sobre o calor ou a chuva.
A partir dos talk shows matinais e outros programas, eu aprendi que o segredo da vida é ser famoso, rico, vagamente religioso e “do bem”. Todo mundo no ar ama todo mundo e sorri o tempo todo. Histórias maravilhosas foram contadas de pessoas com deficiência que tiveram a força de vontade para serem bem-sucedidas em seus empregos. Especialistas e celebridades discutiam isso e outros assuntos com notável superficialidade.
Eu decidi pular os programas da tarde –a maioria reprises de novelas e filmes de Hollywood– e ir direto ao noticiário do horário nobre.
Há dez anos, um âncora da Globo, William Bonner, comparou o telespectador médio do noticiário “Jornal Nacional” a Homer Simpson –incapaz de entender notícias complexas. Pelo que vi, esse padrão ainda se aplica. Um segmento sobre a escassez de água em São Paulo, por exemplo, foi destacado por um repórter, presente no jardim zoológico local, que disse ironicamente “É possível ver a expressão preocupada do leão com a crise da água”.
Assistir à Globo significa se acostumar a chavões e fórmulas cansadas: muitos textos de notícias incluem pequenos trocadilhos no final ou uma futilidade dita por um transeunte. “Dunga disse que gosta de sorrir”, disse um repórter sobre o técnico da seleção brasileira. Com frequência, alguns poucos segundos são dedicados a notícias perturbadoras, como a revelação de que São Paulo manteria dados operacionais sobre a gestão de águas do Estado em segredo por 25 anos, enquanto minutos inteiros são gastos em assuntos como “o resgate de um homem que se afogava causa espanto e surpresa em uma pequena cidade”.
O restante da noite foi preenchido com novelas, a partir das quais se pode aprender que as mulheres sempre usam maquiagem pesada, brincos enormes, unhas esmaltadas, saias justas, salto alto e cabelo liso. (Com base nisso, acho que não sou uma mulher.) As personagens femininas são boas ou ruins, mas unanimemente magras. Elas lutam umas com as outras pelos homens. Seu propósito supremo na vida é vestir um vestido de noiva, dar à luz a um bebê loiro ou aparecer na televisão, ou todas as opções anteriores. Pessoas normais têm mordomos em suas casas, que são visitadas por encanadores atraentes que seduzem donas de casa entediadas.
Duas das três atuais novelas falam sobre favelas, mas há pouca semelhança com a realidade. Politicamente, elas têm uma inclinação conservadora. “A Regra do Jogo”, por exemplo, tem um personagem que, em um episódio, alega ser um advogado de direitos humanos que trabalha para a Anistia Internacional visando contrabandear para dentro dos presídios materiais para fabricação de bombas para os presos. A organização de defesa se queixou publicamente disso, acusando a Globo de tentar difamar os trabalhadores de direitos humanos por todo o Brasil.
Apesar do nível técnico elevado da produção, as novelas foram dolorosas de assistir, com suas altas doses de preconceito, melodrama, diálogo ruim e clichês.
Mas elas tiveram seu efeito. Ao final do dia, eu me senti menos preocupada com a crise da água ou com a possibilidade de outro golpe militar –assim como o leão apático e as mulheres vazias das novelas.”


http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/11/the-new-york-times-detona-a-globo-tv-que-ilude-o-brasil.html

sexta-feira, 6 de março de 2015

Os ovos da raposa - II

Acho certa graça quando recebo e-mail falando de coisas mirabolantes como determinadas substâncias que causam doenças, outras tantas que curam de fratura exposta a mau olhado.

Há os que alertam sobre venenos injetados em potes de iogurte, ladrões de órgãos que deixam as vítimas em banheiras de gelo, simulacros de assaltos com tramas cinematográficas...

E os que nos apavoram com teorias da conspiração? Tal País está sempre prestes a ser dominado por outro, a Amazônia sob o mando de europeus e norte-americanos, guerrilheiros sempre à espreita, cuidado com pacotes recebidos pelo correio e que podem conter explosivos químicos.

Os que preconizam dominações totalitárias na América Latina terminam sempre propondo alguma coisa, de assinatura de revista a contribuição para alguma ONG.

Tudo balela.

Quando eu era criança, lembro das brincadeiras que eram feitas nesse sentido, só para causar susto e alvoroço nos amigos menores. Quem nunca foi dormir preocupado com a loira do banheiro ou rezando para não se deparar com o homem do saco? Certa vez um bando de garotos da minha rua espalhou que havia encontrado ovos de raposa num terreno próximo, o que causou extrema curiosidade pois ninguém havia visto nada parecido!

Pois é, crianças acreditam em tudo, são ingênuas – e à medida em que fomos crescendo, tivemos bom senso para separar o joio do trigo e rir daquelas babaquices. Entretanto, eram brincadeiras até certo ponto sadias, mexiam com nosso imaginário e despertavam a curiosidade para saber o que era verdade, fosse pesquisando por contra própria ou perguntando aos pais. Já na vida adulta alguns ambientes de trabalho ainda propunham certas pegadinhas, como mandar o estagiário no almoxarifado da empresa buscar tinta invisível para documentos secretos e serviam mais para integrar o novato à equipe do que outra coisa.

O que me deixa perplexo atualmente é que grande parte das pessoas perdeu a noção do que é razoável e do que é absurdo, preferem acreditar na primeira coisa que encontram em suas caixas de e-mail ou é divulgado pelas redes sociais. Elas não param para pensar, avaliar, raciocinar; não pesquisam, não entram em sites sérios, não conferem se aqueles nomes pomposos que assinam as denúncias são reais ou não ou se as fontes são confiáveis ou tudo não passa de uma brincadeira.

Esse é um alerta que eu sempre faço: chequem as mensagens antes de repassá-las adiante! Nem tudo o que ouvimos aconteceu daquela forma, nem tudo que lemos é verdadeiro! Usem seus conhecimentos, seu bom senso, sua razão.  Se não for assim, daqui a pouco mais pessoas estarão acreditando nos ovos da raposa...

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

A Morte

Diz o adágio popular que a morte é a única certeza da vida. Se você considerar em termos filosóficos é a mais pura verdade mas com absoluta certeza todos nós haveremos de considerá-la no mínimo, injusta.

Racionalmente, conseguimos compreender que tudo tem um ínicio e um fim – menos para os seres vivos. Seu automóvel, seus eletrodomésticos, a torneira elétrica da sua cozinha, seu barbeador bivolt, o secador de cabelos... tudo um dia vai encrencar e pedir um novo. Mas... a vida?!?

Esse sentimento de impotência é assustador; a vida não tem retorno, não existe reposição e não há como compensar a perda de alguém que amamos, com quem convivemos longo tempo de nossa existência.

Alguém querido que se vai deixa um vazio inexplicável em nossa alma, acordamos no meio da madrugada sobressaltados como se aquilo não fosse verdade e enfrentamos o dia-a-dia completamente desanimados. A nossa própria vida parece perder o sentido, há uma fissura no nosso coração.

Eu digo que a morte é injusta pois como admitir que uma vida de sonhos, de trabalho e de amor termine às vezes de maneira violenta ou com sofrimento por alguma enfermidade? Difícil, muito difícil...

Por isso mesmo as pessoas começam a desacreditar de tudo e não há como tirar-lhes a razão: sobra mesmo esse sentimento de quase revolta e por mais que resistamos, rola aquela lágima de dor, de mágoa, de saudade.

É fácil – ou parece ser – para quem não está no centro desse sofrimento, dizer para sufocar essa revolta muda, eu bem sei disso! Já perdi muitas pessoas queridas, família ou amigos, e sei o que digo.

Não há, de fato, receita pronta, uma fórmula que nos devolva o sorriso ao nosso rosto. O coração ainda vai bater descompassado, a saudade sufocará o nosso peito, nossa memória reviverá cenas como num filme e os olhos marejarão sem que consigamos conter tudo isso. Aos poucos lembraremos das cenas de maneira mais suave e com menos emoção e isso irá se acentuando até que consigamos esboçar um sorriso ao nos lembrarmos de quem já se foi e do que representou em nossa vida. Ainda sentiremos saudade mas será diferente, não aquele sentimento de perda mas o de serenidade. Devemos aprender que de fato tudo tem um início, um meio e um fim. Não podemos ser egoístas e querermos apenas a alegria do início e a segurança do meio.

Vivamos com a consciência de nosso papel e do que representamos para quem está conosco; sejamos os melhores porque a única certeza da vida...

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

O voto (segundo turno)

O Brasil tem assistido, nas últimas décadas, a mudanças significativas. Se considerarmos o período imediatamente após o término da II Guerra Mundial, em 1945, veremos que houve muito avanço tecnológico. Migramos de um país de pobreza escancarada e sem avanços culturais para um rascunho de país no rumo do desenvolvimento.

Afinal, àquela altura, a escravidão deixara de existir em nosso solo a apenas 57 anos – um nada, em termos de História – e convivíamos com o preconceito e a ignorância de muitos. O início do Século XX foi, então, marcado por essa dualidade: um grupo privilegiado que detinha o poder econômico e outro muito maior, que dependia e era subjulgado pelo primeiro. De certa ótica, a escravidão continuou.

Aos poucos grandes empresas e indústrias foram se instalando aqui, proporcionando uma vida econômica mais decente às famílias. Os imigrantes, sempre muito bem vindos, foram grandes responsáveis por mudanças culturais, trazendo sua força de trabalho e seus costumes. Dessa miscigenação toda nascia um novo Brasil, um lugar de oportunidades, de projeção, de futuro. Havia trabalho, havia vontade, havia alegria em realizar. Crescemos e marcamos nossa presença no mundo moderno.

Politicamente, entretanto, nossa evolução deixou a desejar. Passamos de colônia portuguesa a um País livre e independente. Não soubemos lidar nem com uma coisa, nem com outra. Ser livre impõe atitudes e responsabilidades primeiramente dentro de seu território e depois, fora dele. Independência anda de mãos dadas com a soberania, o ordenamento constitucional consolidado pela vontade do povo. Infelizmente, o que percebemos é que essa vontade popular vem sendo manipulada através destes anos todos para manter este ou aquele grupo no poder. Se algum tipo de controle ideológico sempre existiu na Humanidade, no Brasil aconteceram grandes deturpações disso em função de favorecimentos pessoais: não se visa o bem comum mas a locupletação de alguns poucos em detrimento de toda a Sociedade.

Ficou famoso – nefastamente famoso – o jargão do “jeitinho brasileiro”: se no início ele induzia ao entendimento de inovação e criatividade, hoje sinaliza a existência de malandragem, de esperteza ilícita.

Estamos em plena campanha eleitoral para eleger o Presidente da República e o que presenciamos principalmente nos debates pela televisão foram ataques pessoais de parte a parte. Não há um propósito, um plano para o bem do País, para destravarmos nossa Economia, para alavancarmos a Educação, para sanearmos a Saúde, para erradicarmos a corrupção – nada! O que há é um fogo cruzado de forma generalizada. Historicamente há grupos de pessoas – sempre as mesmas pessoas – há décadas comandando ou se aproveitando de parcelas de Poder e do deleite que ele pode proporcionar. Essa sede de Poder, além de familiar, é hereditária...

Especificamente nestas eleições estão jogando pobres contra ricos, dando início a uma absurda guerra de classes sociais, acirrando a discriminação e fomentando o preconceito. Em suma, voltamos ao início do século XX mas com uma diferença fundamental: a informação, a velocidade da comunicação. Por mais humilde que seja, qualquer pessoa hoje pode ter nas mãos um celular com acesso à Internet e ser bombardeada com toda sorte de fatos e dados, sejam eles reais ou não. Continuamos a ser controlados e induzidos pela classe política.

A você que vai votar neste domingo, esqueça promessas tolas e ataques emocionais: pense em você, em sua família, em sua estrutura de vida que quer ver melhorada. Vote Nação, vote Pátria, vote você.

Você é a razão da existência de tudo isto – eles precisam do seu voto, não se esqueça...

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

O voto

Muitas pessoas perguntam minha opinião sobre os candidatos ao cargo de Presidente da República nas eleições que irão ocorrer no próximo domingo.  Já tive a oportunidade de escrever sobre isso aqui em ocasiões anteriores e minhas palavras permanecem as mesmas: se você for se nortear pelas promessas de campanha, pode votar em qualquer um pois todos, indistintamente, investirão na Educação, Saúde, Segurança, Habitação, Transportes e por aí vai. Qualquer um deles – segundo os discursos de campanha – vai transformar o Brasil em país de Primeiro Mundo.

Na noite desta quinta-feira fiz questão de assistir o último debate dos presidenciáveis, transmitido ao vivo pela televisão e confesso que fiquei perplexo com os ataques e ofensas pessoais disparados por eles; parece que estão num jogo, numa competição somente entre eles próprios. O estabelecimento de metas para o desenvolvimento do País é feito de maneira vaga e as propostas carecem de embasamento técnico. Fala-se em construir isto e aquilo sem indicar qualquer fonte de recursos. As promessas para melhoria nos vários setores continuam as mesmas que ouço desde que sou criança, o que me leva a crer que nada será investido. Falácia.

Como resultado dessa bagunça generalizada, desse verdadeiro ringue eleitoral que se forma, noto que os mais jovens tendem a seguir uma linha fora dos padrões que aí estão, talvez na intenção de  inovar, de renovar. Entretanto, esse afã juvenil não percebe a manipulação que existe por trás de idéias aparentemente novas. Viajando no embalo da inexperiência acabam caindo nas mesmas armadilhas habilmente preparadas por gupos políticos tão antigos quanto a República.

Domingo é o dia. Eu gostaria de estar errado e acreditar em algumas coisas, como na urna eletrônica, por exemplo – mas não acredito. Existe manipulação em tudo, das pesquisas eleitorais até a contagem eletrônica de votos – quem leu 1984 (George Orwell) e se lembra que os livros de História e os jornais eram reescritos a cada novo fato criado pelo Grande Irmão, sabe o que estou dizendo. 

Bom voto a todos!


sexta-feira, 11 de julho de 2014

A absolvição de Barbosa

Certamente foi a condenação mais longa do Brasil: 64 anos ou, mais precisamente, 23.368 dias: esse foi o tempo de martírio de Moacir Barbosa do Nascimento. Nesse tempo ele foi sumariamente julgado sem direito a qualquer espécie de defesa e execrado publicamente. Não faltaram dedos apontados acusatoriamente para ele. O crime? Ter deixado passar a bola chutada por Ghiggia no segundo tempo do jogo Brasil e Uruguai, em dezesseis de julho de 1950.

Durante décadas falou-se no silêncio que dominou o Maracanã naquela tarde, que apenas a câmara de um espectador anônimo filmou, de forma amadoresca e triste. Passei minha vida toda vendo esses poucos segundos de imagens em preto e branco que registraram a derrota do Brasil numa Copa do Mundo realizada em casa. Depois disso, Barbosa, o goleiro, foi obrigado a sentar no banco dos réus e só pôde sair dalí no dia oito de julho deste ano, quando o Brasil, novamente sediando uma Copa do Mundo, foi massacrado pela Alemanha por sete a um e sendo eliminado da fase final do certame. Adeus, Copa 2014.
Mais do que um resultado vergonhoso, a derrota para a Alemanha por um placar tão expressivo deve servir de lição não a um time, a um selecionado mas ao povo brasileiro: não se pode viver de ufanismo.

O brasileiro sempre bateu no peito, num orgulho de que éramos os melhores do mundo com a bola no pé. Doce ilusão. As vitórias não nascem da sorte mas do empenho, do trabalho, do treino, da disciplina e sobretudo da humildade.

É chegada a hora de nos voltarmos à realidade e acabarmos com o endeusamento de algumas dezenas de pobres mortais que auferem milhões de reais, dólares ou euros, num franco escárnio a quem passa a vida toda em bancos de pesquisa e estudo. Vamos parar com essa hipocrisia pois a Sociedade como um todo só é voltada para o dinheiro. Se nossos jogadores fossem tão brasileiros e patriotas como dizem ser, não iriam jogar no exterior – se fazem isso é em função dos absurdos salários que percebem. A mídia está aí para não me deixar mentir: a vida que eles levam é regada a luxo, mordomias e banalidades – e não são poucos os que se metem em confusão por causa disso; não preciso nem citar nomes.
Tudo hoje é muito diferente do que nos idos de 1950, quando ainda existia o amor à camisa, a dedicação aos clubes de origem, o sentimento de amor à Pátria. Não havia tanto interesse econômico camuflado atrás de cada contrato, cada marca, cada nome.

Barbosa nos deixou em abril de 2000 e, segundo registra a História, amargurado por um gol que não conseguiu defender, sentindo-se responsável pela derrota.

Bobagem, goleirão! Fique em paz, agora. Tomara que o povo brasileiro siga seu exemplo de humildade: você nunca procurou a mídia para reclamar de nada, apenas continuou sua vida, trabalhando honestamente e amando as pessoas que ficaram à sua volta.


O grande Barbosa não foi um vilão mas um ícone a ser reverenciado: a verdade tarda mas não falha!

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Você me desculpa?

Acho pouco, assim
Pedir desculpas
De atitude impensada
Fica fácil errar
Deixar p’ra lá
Viver o dia seguinte
Como se nada existisse
E as pessoas fossem feitas
De pedra
De sal
De aço
De nada
Mas não são
Pessoas são alma
Corações sensíveis
Atitudes
Promessas
Carinhos
Sexo
Tudo assim
Misturado e solto
Leve e complexo
Conturbado e calmo
Novela e realidade
Ficção e aventura
Tudo amassado
Dobrado e reto
Tentativa e erro
Tentativa e acerto
Tentativa e tentativa
Não devemos desistir
Pois não podemos resistir
E a rima que não baixa
Na hora certa se encaixa
A vida é mágica
Some o temor
Surge o amor
Amor
Amor
Amor
Vai resistir?

Amo você
Amo você
Amo você