domingo, 30 de junho de 2024

SAUDADE TEM GOSTO DE ALGODÃO-DOCE


Já li muita coisa sobre o termo saudade. Dizem que só existe na Língua Portuguesa – em nenhuma outra. Não tem tradução. 

Será?

Não entendo tanto de idiomas assim para afirmar – aliás, além de um Português meio assim-assim, arrisco poucas palavras em outras paragens... quanto mais a sobrancelha do ouvinte sobe, mais certeza tenho de que estou falando bobagem...rs... deixa pra lá – o que importa não é nem a bandeira do nosso cartão de crédito mas o limite que ele contém...

Mas voltemos à comparação que eu quero fazer!

Alguém se lembra do gosto do algodão-doce? Não precisa ser lembrança do teor de açúcar ou do tanto que a guloseima grudava na mão ou incomodava ao ir de encontro ao nosso cabelo.

Duvido que alguém se esqueça do instante em que aquela máquina meio sem graça ia tecendo fios mágicos de açúcar, as luzes coloridas do lugar, a algazarra das crianças, das palavras suaves dos nossos pais e do momento indescritível em que nos era permitido pegar uma nuvem de múltiplos prazeres: olfativo, visual, sensorial, até que chegava à nossa boca.

Esse momento – ou a junção desses instantes – em que nos lembramos e revivemos a lembrança de tudo isso, das pessoas que nos proporcionaram essa magia – se chama saudade. 

Claro que não é o único momento em que sentimos isso, foi apenas uma maneira de assim colocar. Você pode sentir saudade no nascer ou no por do Sol, na chuva que cai no meio da tarde, na música que você gosta tocando ao longe, na visão da criança que ensaia os primeiros passos e que já não mais existe, no beijo que você jamais esqueceu, na lembrança daquela pessoa que você tanto pensou que amava... 

As coisas são assim, evanescentes como aquele algodão-doce... que mesmo existindo por um breve momento, deixou lembranças (saudades) impossíveis de serem esquecidas...

A saudade tem gosto de algodão-doce...

domingo, 14 de maio de 2023

"Não põe a mãe no meio!"

Às vezes me pego a pensar no meu tempo de criança. Não havia essa tecnologia de hoje – crescemos sem celulares, sem computadores, sem joguinhos eletrônicos na televisão. Sei que a criançada de hoje nem imagina que fazíamos os nossos próprios brinquedos às vezes e na maioria dos casos um lote de terra e uma bola resolviam nosso problema de diversão (quem é dos anos 50/60 lembra disso). Não havia nenhum treinamento, nenhuma tática: jogávamos conforme víamos os times na televisão. Sem uniformes, decidíamos entre os com camisa e os sem camisa. Chuteiras? Nem pensar... alguns jogavam de sandálias mesmo. As regras inventávamos na hora e não havia juíz. Uma coisa era certa: aonde a bola ia, lá iam todos os jogadores dos dois times, embolados, tropeçando uns nos outros. E quem nunca tinha levado um tombaço e deixado bons pedaços de pele do joelho na terra? Qual de nós, ao tentar marcar o pênalti, acertou uma pedra e não a bola e voltou mancando pra casa? Tempos bons... Claro que saíam brigas nas jogadas. Na falta de VAR, deliberávamos nós próprios alí, no grito, no empurrão, com palavreado alterado, cada um defendendo seu ponto de vista. Sobravam sopapos e a briga generalizada.

Mas havia um código de honra entre todos – as desavenças do jogo e das brincadeiras juntos ficavam entre nós. Se alguém inventasse de ofender a mãe de alguém, o tempo fechava. Todos esqueciam as diferenças pessoais e partiam pra cima do ofensor. Ninguém admitia que absolutamente nada fosse dito sobre a mãe de alguém; podíamos nos xingar de um monte de palavrões, mas se envolvesse mãe... ah!... esse garoto estava frito. E depois de muito bate-boca ele era posto no ostracismo, não podia participar de nenhuma brincadeira por um período.

Fiz esse relato todo para dizer que a figura da mãe sempre foi algo sagrado para cada um de nós. Desde garotos sabíamos que deveríamos defender nossas mães de qualquer ameaça. Tínhamos consciência de que nossa mãe zelava por nosso bem estar. Era nossa mãe que ficava do nosso lado, nos defendia de situações adversas. Era ela que tratava do joelho ralado no tombo e do dedo arrebentado na cobrança do pênalti. Ela também nos acalmava quando chegávamos alterados pelas contrariedades da infância ou por causa do menino que tinha rasgado a figurinha do álbum.

Mãe não sinaliza somente a mulher que teve filho/filhos; mãe é a síntese do amor abnegado, incondicional. Ela é a figura na qual nos espelhamos desde a mais tenra infância para sermos o que somos hoje. Pensa que é por acaso que todos temos um “M” na palma da mão? É M de Mãe – bom, né? Isso quer dizer que, mesmo distantes dela, a cada manhã quando lavamos o rosto, esfregamos docemente esse M em nossa face, num carinho que não acaba nunca... E existe beijo melhor do que o dela?
Feliz Dia das Mães!

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

 A NOITE EM QUE PELÉ IMPEDIU QUE EU APANHASSE

Paris, julho de 1997. Eu havia andado muito pela cidade naquele dia. As coisas todas eram corridas, vida de turista não é fácil! Horário para transporte, para ingresso em museu, outro museu, visita a Notre Dame, mais uma galeria, outra loja... ufa! Já era noite quando voltava para o hotel. Fome, claro. Ainda dentro da estação do Metrô, tinha uma banca de frutas. Parei, cumprimentei os dois vendedores com o olhar e fiquei observando o que levaria. As frutas eram lindas, pareciam suculentas. Eu me decidi por maçãs e ato reflexo, peguei uma delas para observar mais de perto, como é nosso costume no Brasil. Não demorou meio segundo para que os dois começassem a esbravejar comigo em bom e puro francês – idioma no qual eu não digo nem 'oi'. Os homens ficaram enfurecidos comigo. Lembrei do nosso escritor José de Alencar porque eles eram 'negros como as asas da graúna'. Quem já foi à França sabe do que estou dizendo: os negros residentes na França fazem com que o Neguinho da Beija-Flor pareça mais um moreninho claro... Eu pensei que eles fossem me bater alí mesmo, tinham uma raiva inexplicável nos olhos e não paravam de gritar comigo. Era evidente que não haviam gostado que eu tivesse colocado a mão numa maçã. Comecei a balbuciar num Inglês débil, tentando me justificar: “Sorry... I'm not from around here. I'm from Brazil... there we have other customs... Brazil, you know? Samba... Carnival... Pelé...”. Foi aí que o milagre aconteceu: quando eles ouviram 'Pelé' a fisionomia de ambos se transformou. A raiva foi embora e o rosto franzido deu lugar a sorrisos largos e um olhar doce. Permitiram que eu fizesse algo que (fiquei sabendo depois) não é comum por lá: escolher as frutas que eu queria, eu mesmo pegando-as nas mãos. Fui embora feliz com as minhas maçãs por vários motivos: daria um jeito imediato na fome, não havia apanhado deles e o mais importante... tive a confirmação inequívoca de que Pelé não era um jogador de futebol brasileiro. Pelé era uma instituição internacional. Ele não pertencia ao Brasil mas era do mundo. Todos o conheciam, admiravam, respeitavam. Sempre contei essa passagem aos amigos e agora, com profunda tristeza pelo passamento do Edson, resolvi escrever para que mais pessoas saibam. Pois é, Edson... você se foi para um merecido descanso mas o Pelé, esse vai ficar por aqui porque é eterno, é imortal, é uma constelação inteira no firmamento.