sexta-feira, 24 de agosto de 2012

A Mudança

A sala ficou pequena de repente com tantas caixas atulhadas. Estava tudo meio empilhado, fora de ordem, um desalinho só. Sem etiquetamento nem qualquer identificação aparente, tentava adivinhar o que estava dentro de cada uma daquelas embalagens – em vão.
Passeava a esmo pelo apartamento vazio de mobília, observava cada canto fazendo inevitável comparação com o anterior.
De repente a vida deu uma guinada e teve que sair de uma relativa zona de conforto – um pesadelo, na verdade. Mas tudo bem, com calma tudo se ajeitaria, agora tinha a perspectiva de um recomeço. Talvez novos móveis ajudassem a arejar a cabeça – quem sabe até um novo amor? Estava disposto a tudo isso e mal podia esperar o momento em que tudo se concretizasse.
Os devaneios foram interrompidos pelo som irritante do interfone, que rebatia nas paredes nuas.  Era ela... havia chegado como prometera! Pontual e linda, entrou pela porta emprestando beleza e sensualidade ao lugar.
- Gostou do apartamento?
- Adorei... tudo muito lindo, uma gracinha!
- Desculpe-me pela bagunça... até arrumar tudo vai demorar um pouco...
- Eu entendo perfeitamente... Esqueceu do que eu falei? Eu sei até manejar uma vassoura, sabia?
- É mesmo? Hum... olha que as bruxas também sabem... (risos)
- Engraçadinho... Gosto do seu bom humor...
- E eu gosto desse seu charme! Quer dizer que vai me ajudar a arrumar e decorar minha casa nova? Fico feliz...
- Mas é claro! Vai ficar tudo como você gosta... simples mas de bom gosto, sofisticado sem parecer brega...
- Confio em você. Trouxe o champagne?
- Isso eu não esqueceria por nada, lembra daquele e-mail?
- Claro que sim! E não podemos beber em copo de requeijão, lembra? (risos)
- De jeito nenhum! (risos)
- Onde estão as taças?
- Ai! Eu não sei como dizer isto mas... eu esqueci de trazer...
- Bom... é... vai ser difícil encontrar alguma taça no meio desta bagunça...
- Deixe-me tentar, eu levo sorte nessas coisas. Acho que pode estar nesta caixa aqui... ah, não... talvez nesta... também não... deixe-me ver nesta aqui... ah, não falei? Achei uns copos!
- É mesmo? Não acredito... você tem sorte, mesmo!
- Bom... ih... mas... é que...
- O que foi?
- Não vai brigar comigo...
- Por quê eu faria isso?
- Os copos são de requeijão...
- O quê??? Copos de requeijão??? Ah, tem dó... tomar nossa primeira champagne no apartamento novo, em copo de requeijão???  Que decadência... que falta de requinte... não tem coisa pior!
- Acho que tem, sim...
- O quê?
- São de plástico...

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Juventude

É bom ser jovem. Você tem a vida toda pela frente, conhece de tudo, sabe de tudo, enfrenta tudo de peito aberto.
Tudo var certo e nada pode comprometer o seu sucesso. Afinal, você é jovem e o que é que pode dar errado?
Sempre haverão aqueles tolos a encher os ouvidos dos jovens sobre as mazelas da vida, a vaticinar os perigos, a antever as derrotas.  Quanta babaquice! Ser jovem significa não ter medo de nada, passar noites em claro, beber além da conta, fazer sexo sem preocupações. O dia seguinte? Ah, isso se vê depois, quando o dia seguinte chegar.
Nada de precipitações. A vida é longa e maravilhosa – precisa ser aproveitada, digerida, curtida.  Não há que se perder tempo com análises das situações: para que tudo isso, essa ansiedade?
Isso é coisa de velho.
Jovem não fica ligado em problemas. Atrasa na aula da Faculdade, estaciona o carro em qualquer lugar, vai mal na prova – só não dá bobeira quando o compromisso é com aquela festa tão esperada. Tudo é válido!
Até que chega um dia em que a juventude cede lugar à maturidade.
Largamos a casa paterna e temos que viver a nossa realidade. A prestação da casa, o carnê do carro novo, a televisão de tela plana, os filhos, a conta do supermercado, o boleto do seguro-saúde... ufa!
Ué, cadê aquela nossa vida de idealismos? Onde foi parar aquele sonho cor-de-rosa?  O cabelo longo deu lugar a um comportado conjunto de mechas grisalhas e um par de óculos invadiu nosso nariz de repente. Marcas de expressão teimam em morar no nosso rosto e trocamos as noitadas por sessões bem comportadas na academia logo cedo. A única coisa que sobrou foi o gosto pelo rock pesado.
Ficamos velhos.
Velhos, não... inevitavelmente maduros.
Aí as situações se invertem e passamos a compreender os nossos pais. Ficamos preocupados quando os filhos chegam tarde, queremos saber onde estiveram e quem são suas companhias e ouvimos algo sobre invasão de privacidade. Quando questionamos as notas baixas nos esfregam na cara as reportagens sobre novos modelos sociais, psicologia moderna e revolução nos estudos. Malditas revistas!
Juventude. Parece que esse termo carrega algo mágico e a tradução exata desse termo não consta em dicionário algum.
Sempre existirá esse choque, essa mescla de valores entre a Juventude e a Maturidade.  Acho que nunca chegaremos a um denominador comum. Os jovens sempre afrontarão a todos porque estão contaminados pela certeza que serão assim para sempre.
Não adianta tentar explicar que a vida é cíclica: jovens não têm paciência para escutar isso. No fundo, somos todos iguais, pretendemos as mesmas coisas, queremos somente nossa felicidade. E não adianta atropelar o tempo. Temos que ouvir e respeitar as opiniões mesmo que forem contrárias.
Os jovens só entenderão tudo isso quando forem maduros mas antes, devem ser jovens! Não adianta essa pretensão de inverter porque a dinâmica da vida é maravilhosa – parabéns a quem inventou esse modelo!
Só nos resta assistir essa transição, rezando para que não enveredem por caminhos muito tortuosos porque, um dia, nos encontraremos para conferir nossas apostas.
Tenho certeza disso!

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Smart


Embora eu tivesse me segurado bastante, não teve jeito: cedi mesmo à tentação e comprei um Smartphone.
Não foi exatamente uma pechincha mas o parcelamento em doze vezes sem juros no cartão de crédito foi decisivo. As facilidades que a Internet oferece são irresistíveis: não conheço melhor vendedor.
Dois dias depois, antes mesmo do prometido, o aparelho chegou. Quando o porteiro avisou pelo interfone, desci rápido, todo feliz. Vim pelo elevador já rasgando a embalagem... parecia uma criança. Desembalei com cuidado e me deparei com um pequeno folheto de instruções; o manual estava no próprio telefone, teria que ligá-lo primeiro.
Mãos à obra!!!
Fiquei longos minutos olhando para o aparelhinho em minhas mãos e tentando descobrir como abrí-lo para inserir a bateria (não veio escrito como isso poderia ocorrer). Procurei por todos os lados e... nada! Consegui abrir o estojo por acaso e instalei o cartão de memória, o chip da operadora e a bateria. Fechei tudo e liguei. Uau! Ele funcionou!!! Resolvi fazer a primeira ligação mas... como? Onde está o teclado? Tudo na tela, tudo virtual – isso eu já sabia – mas tinha que ter uma dica, uma seta piscante com um aviso “aperte aqui”.  Nada. Achei um ícone escrito “Configurações”. Pensei: “ah... agora sim!” Hum... quem disse?!? Que nada, o menu de configurações é quase tão claro como inscrições rupestres. Fiquei lembrando do garoto que trabalha conosco; tem um aparelho igualzinho ao meu e faz de tudo com ele: telefona, usa a Internet, faz trabalhos de Faculdade, tudo! Como é que eu não conseguia? De repente me senti um homem pré-histórico tentando dirigir um Lamborghini.
Eu já tinha ouvido falar que quem projeta esses aparelhos todos são pessoas muito jovens, adolescentes com QI elevadíssimo e agora vejo que é tudo verdade.  Acho que eles se divertem só de imaginar as pessoas tentando se acostumar com tantos botões, configurações e palavreado em tecnologês.
Mas tudo bem. Aos poucos eu vou me acostumar com meu novo brinquedinho. Já sei ligar e desligar – é um progresso e tanto. Falta, ainda, decorar quarenta e seis botões virtuais com suas funções, etc. Depois disso posso avançar para o uso da Internet – como acessar, mandar e-mail, percorrer redes sociais, essas coisas básicas.
Agora preciso ir. Tenho que fazer uma ligação e, para isso, vou pegar meu velho aparelho celular – aquele que pretendi aposentar para usar o Smartphone. Coisas deste tempo doido, que num primeiro momento atropela até nosso bom senso – mas nunca o bom humor...